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Seminarista Everson Fontes

V Domingo da Páscoa

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“EGO SUM VITIS ET VOS PALMITE”
(“Eu Sou a videira e vós o ramos”)

V Domingo da Páscoa
(Ano B – 06 de maio de 2012)


I Leitura: At 9,26-31
Salmo Responsorial: Sl 21(22),26b-27.28.30.31-32 (R/. 26a)

II Leitura: 1Jo 3,18-24
Evangelho: Jo 15,1-8 (Videira e Ramos)


Queridos irmãos,Nesta caminhada litúrgica do Tempo Pascal e existencial rumo à Pátria Definitiva, gostaríamos de refletir um pouco acerca do Evangelho deste V Domingo da Páscoa.
“Ego sum vitis vos palmite. Qui manet in me et ego in eo, hic fert fructum multum: quia sine me nihil potestis facere” – Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15,5). Eis o mistério do crescimento da Igreja: a união com o seu Deus. Neste domingo, como cristãos, somos convidados a nos voltar para o mistério da Igreja, para o mistério de nossa vida; somos invitados para um olhar avaliativo da nossa caminhada e a questionarmo-nos acerca do nosso fundamento vital que deve ser o próprio Cristo Senhor.
Videira e ramos. Ao utilizar tal alusão da ligação existente entre esses dois elementos (videira e ramos), Jesus nos incomoda, pois aparenta estar apelando para uma lógica infantil. Como se desenvolve um ramo, como tem vida, se não está ligado a um tronco, a uma matriz? Somente a partir daí é que ele desenvolve-se, gera frutos, é canal de nutrientes para encher de sabor aquilo que produz e que vai alimentar e saciar a um outrem, às vezes até a um estranho. E, consequentemente, como produzirá vida um ramo que está cortado de sua raiz? Em um sentido não mais alegórico, mas real, o estar ligado à raiz, ao tronco, significa estar atento ao Cristo na escuta da Palavra e na frequência devota dos Sacramentos. As Divinas Escrituras e os Sacramentos são promotores da união profunda com Jesus, pois somente eles podem nos levar a Deus de uma forma ordinária e seguramente correta porque partem da fé da Igreja, Esposa de Cristo. O “sentire cum Ecclesia” (sentir com a Igreja) é um elemento imprescindível para a nossa união com o Senhor. Se estivermos em suas fileiras, fazendo-o não por conveniência, mas de modo convicto e condigno, estaremos estreitamente unidos ao Salvador que, Nela, nos fala e nos alimenta, doando-nos, continuamente, a vida divina.
“Eu sou a videira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa para que dê mais fruto ainda” (v. 1-2). Sabemos que para o desenvolvimento de certas culturas, como é o caso da vinícola, faz-se necessário a dispensa de um cuidado especial, inclusive de podas. Logicamente, o desbaste nunca é feito na raiz, mas nas ramagens. Em que consistiria esta limpeza na vida prática da Igreja, do cristão? Ao apresentar-nos o Pai, associando-o nesta alegoria como agricultor, Jesus demonstra-nos o cuidado que o Ele tem para com aqueles que estão de alguma forma unidos ao Cristo, Verdadeira Videira. A todo o que produz fruto, o Divino Agricultor o limpa. Quer dizer, procura os que portam em si frutos abundantes. Percebamos que ele não trata da raiz, que é indefectível, pois é o próprio Jesus, mas somente dos sarmentos, acenando que os discípulos é que necessitam de grandes cuidados. Em linhas gerais, São João Crisóstomo afirma: “O que não produz fruto algum não o mantém na vida nem pode Ele permanecer nele; e ao que produz fruto o torna mais frutífero” (Sobre o Evangelho de João, 76).
O que significa a atitude do agricultor de limpar os ramos? Não é vontade de Deus que se abata o sofrimento no coração e na vida das pessoas. Porém, Deus assim o permite para que seja provada a sua fé. As dificuldades da existência humana, se encaradas com fidúcia Naquele que já venceu por nós, são ocasião especial de crescimento na graça diante de Deus, “pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho” (Hb 12,6). Somos filhos bem queridos de Deus no Filho eternamente amado. Ante as provações que a vida nos reserva, mesmo sem entendê-las, somos convidados a dar ‘um passo adiante’ na nossa experiência de fé. Isto é produção de frutos! E, como no caso da videira, os frutos nunca são para ela mesma, mas são entregues a fim de que sacie e leve o ‘vinho da alegria’ a outrem. Se o mundo necessita de sinais para achegar-se a Deus, esses devem ser a nossa vida pautada no evangelho da luta cotidiana, fundamentada primariamente no próprio Senhor Ressuscitado, razão do nosso existir e para quem rumam os nossos passos nas vias da existência terrena. Somente Jesus nos fortalece nas agruras de nossa condição, principalmente se as sofremos por amor ao Evangelho: “Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei” (v. 3).
Se formos sinais de vida e alegria saudáveis para o mundo, seremos cônscios de que a nossa vida está regrada corretamente e, a partir do meu viver, Deus será glorificado: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos” (v. 7-8). A vida humana somente tem sentido se for uma contínua aspiração de agradar e glorificar a Deus. Neste sentido, peçamos sempre ao Senhor apenas as virtudes necessárias para manifestarmo-lo ao mundo com a nossa paupérrima existência. Interessante: quando o fruto é aprazível ao olhar de quem o vê e saboroso ao paladar de quem o degusta, nunca o elogio é direcionado ao fruto apenas, tampouco à ramagem na qual aquele foi desenvolvido, mas dirige-se, sobretudo, à árvore que o produziu. Assim devemos ser também: é nossa obrigação e deve ser nossa satisfação encher o mundo dos frutos de Deus colhidos em nós. Daí, Jesus afirmar: “Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados” (v. 6). Não somos ignorantes no que refere ao que significa ser lançado ao fogo, pois o que leva uma vida fútil, separada do Cristo, está absorto em uma existência prófuga, abandonado ao léu da sua própria sorte. A estes está reservada a destruição eterna.
Que, inteiramente abertos ao Cristo Senhor, Videira Verdadeira, deixemos que a sua suave e fortificante linfa nos preencha para que, como ramos que não temos vida em nós mesmos, mas Nele, possamos produzir frutos abundantes para o bem do mundo, tal como a Virgem Maria que, dando o seu sim, concebeu em seu coração e em seu ventre o Bendito Fruto, Jesus Cristo, Senhor Nosso.  

 

III Domingo da Páscoa

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III Domingo da Páscoa

(Ano B – 22 de abril de 2012)

 

I Leitura: At 3,13-15.17-19

Salmo Responsorial: Sl 4,2.4.7.9 (R/. 7a)

II Leitua: 1Jo 2,1-5a

Evangelho: Lc 24,35-48 (Aparição em Jerusalém)

Queridos irmãos,

Diante da Liturgia da Palavra que hoje a Mater et Magistra Ecclesia nos apresenta como reflexão, somos convidados a fazer a seguinte ponderação: se os discípulos de Jesus foram as testemunhas oculares e auriculares da Ressurreição do Senhor, graças as suas manifestações em meio a eles, quem são as testemunhas hodiernas do Senhor Ressuscitado?

Tal indagação deve permear o coração do cristão atual colocando-o, se possível, em xeque. Como já dissemos outrora em nossas reflexões, o mundo sofre por falta de convicções, inclusive não conhecendo o Senhor Jesus. Quem o irá proclamar, afirmando com veemência a sua vitória, levantando as bandeiras da esperança em meio às trevas densas que se sobrepõem ao mundo, obscurecendo-o? Urge, portanto, que a fé que professamos desde o dia do nosso Batismo, quando assumimos como nossa a profissão da Igreja, seja emanada como luz para o mundo que aí está. Faz-se mister que testemunhemos o Ressuscitado com a nossa vida, com as práticas cotidianas, pois a existência e a atuação do cristão no mundo deve ser transparência do Ressuscitado. Se o filósofo Feuerbach afirma que “o homem é aquilo que come”, na lógica cristã de todos os tempos temos: “o cristão é aquilo que crê”; ou melhor: “o cristão traveste-se naquele em quem crê”.

A Primeira Leitura de hoje demonstra o discurso de Pedro no Templo de Jerusalém, após o evento de Pentecostes, dirigindo-se a todo o povo ali presente. E, narrando a trajetória da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus, o Príncipe dos Apóstolos afirma: “Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso somos testemunhas” (At 3, 15). Assim, São Pedro reconhece, sob influxo do Espírito Santo, que Jesus é autor da vida para o mundo inanimado no mal. Jesus quer dar um sentido às coisas, e qual é este rumo senão o seu Imaculado Coração que vivifica, através de uma experiência de amor, quem se abre à sua graça? Ainda hoje querem matar o Autor da Vida, Jesus Cristo. Como? Com tantas ideologias tronchas e desajustadas, promotora da indignidade e da morte moral e existencial do homem remido pela cruz do Senhor. Sabemos que, ao querer olvidar o Cristo da cultura e do agir humanos, extirpando-o, numa tentativa brusca e defectível, o homem ruirá. E qual a grande saída diante desta miséria que abate o mundo? Os cristãos, testemunhas atuais da Ressurreição do Senhor. Como tais, devemos, inseridos nos diversos meios das atividades humanas, conclamar a humanidade uma conversão de vida que perpasse pelo arrependimento e pelo abraçar a fé em Jesus Cristo nosso Senhor.

Na história dos dogmas da Igreja, há uma curiosidade: não existe nenhuma afirmação dogmática sequer que proclame solenemente a Ressurreição do Senhor. Nenhuma! Por quê? Porque para a Igreja, testemunha privilegiada da Páscoa do Cristo, esta verdade é intrinsecamente inerente à sua vida, missão e fé: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15,14). Assim, sendo, percebemos que a Esposa de Cristo nunca cessa de proclamá-lo: “Ele ressuscitou verdadeiramente!” (Lc 24, 34). E nós, com ela, nos momentos difíceis, somos conclamados a fazer coro, dizendo com o salmista: “Muitos há que se perguntam: ‘Quem nos dá felicidade?’ Sobre nós fazei brilhai o esplendor de vossa face!” (Sl 4, 7). O Cristo Ressuscitado que continuamente se mostra e manifesta-se à sua Igreja proporciona-lhe a felicidade autêntica, concede-nos a felicidade verdadeira com a sua face.

Nesta dinâmica testemunhal do Senhor Ressuscitado, na Segunda Leitura, São João, no invitatório de uma vida baseada na santidade, logo no início da perícope, ordena-nos e alenta-nos: “Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 2,1). Assim, ele quer nos dizer que o pecado é um ‘contra-testemunho’ que damos de Jesus para o mundo. Se a Igreja é Santa porque o seu fundador é santo, por que é que muitos de nós resistimos em uma vida pecaminosa, negando assim a Vida Nova da Graça que o nosso Salvador nos trouxe com a sua cruz e ressurreição? Por isso, coadunando o último versículo da Primeira Leitura com o que acabamos de afirmar, podemos pensar que tal como propomos ao mundo uma vida de conversão, devemos também converter-nos de nossas mazelas e fragilidades. O contrário também faz efeito: assim como a nossa conversão é uma conformação ao Cristo Senhor, devemos propor tal atitude ao mundo.

Um verbo belíssimo e constante na literatura joanina é o ‘conhecer’. Tal termo, no seu âmago, denota amar. O amor a Deus é dado, antes de tudo, pela prática dos mandamentos e, a partir deles, esta ação de amá-lo, de conhecê-lo, preencherá toda a nossa vida. Assim sendo, uma pessoa completada de Deus o transparece, o transborda aos outros, manifestando-o. Com isso, afirmamos que, para um apurado e acurado testemunho do Senhor Ressuscitado a observância dos mandamentos, a prática daquilo que é vontade do Senhor, é indispensável.

No Evangelho de hoje, São Lucas, após apresentar a aparição de Jesus a Cléofas e ao discípulo oculto que caminhavam para Emaús, nos traz uma aparição subsequente a esta. Daí o texto iniciar da seguinte forma: “Os dois discípulos contaram o que lhe tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão. Ainda estavam falando, quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: ‘A paz esteja convosco!’” (Lc 24, 35). Acerca desta saudação dominical, já fizemos alusão no domingo passado. E São Lucas continua, narrando os sentimentos dos que ali estavam presentes: “Eles estavam assustados e cheios de medo, pensando que estavam vendo um fantasma”. Quantas vezes, imbuídos pelo pensamento de muitos indiferentes à fé, temos a tentação de arrazoar que Jesus é um espectro, relegando-o a uma figura distante, desencarnada, de apenas um líder ou de alguém especial, ‘iluminada’, que veio a este mundo para exercer uma espécie de filantropia, ou mesmo de um indivíduo que falava coisas bonitas que ainda hoje ressoam na história da humanidade? Tal como naquela época, diante do que nos é apresentado dos discípulos da ‘primeira hora’, o Senhor também nos apresenta sinais suficientes de sua Ressurreição, a nós que somos os seus ‘operários da última hora’. Vemos no texto evangélico de hoje que o Ressuscitado apresenta-lhes as chagas, ao que São Lucas narra: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41). Inúmeras vezes, em um misto paradoxal de uma alegria transitória, a qual denominamos vulgarmente de ‘oba-oba’, ficamos alegres por causa de Jesus, mas no fim das contas não lhe damos crédito. Jesus Ressuscitado vai mais além, não obstante mostrar-lhes as chagas, assume uma atitude inusitada: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”. Jesus come. E não para aí, alerta-lhes sobre o cumprimento das Escrituras em sua Paixão, Morte e Ressurreição: “‘São estas as coisas que vos falei quando ainda estava convosco: era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. […] Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia, e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sereis testemunhas de tudo isso’” (Lc 24,44.46-47). A Igreja, e nós nela e com ela, quando anuncia a Páscoa do Senhor e implora a sua vinda – “Anunciamos, Senhor, a Vossa Morte e proclamamos a Vossa Ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” – cumpre eminentemente a sua missão que é associada a nós pelo Batismo, quando ela, tocando em nossos lábios e ouvidos, no Éfeta batismal, nos diz: “O Senhor Jesus, que fez os surdos ouvir e os mudos falar, lhe conceda que possa ouvir logo a sua Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus Pai”.

É necessário que sempre nos venha à tona o que Jesus nos ordena: “Vós sois o sal da terra. […] Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Se o testemunhamos Vivo, Ressuscitado, Operante na nossa vida, na da Igreja e no mundo, estaremos espalhando o sabor, o clarão, o sentido para o mundo, estaremos espalhando a sua presença nos recônditos da terra.  

 
 

II Domingo da Páscoa

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BEATI QUI NON VIDERUNT ET CREDIDERUNT”

(Benditos são os que não viram e creram)

 

II DOMINGO DA PÁSCOA OU DA DIVINA MISERICÓRDIA

(Ano B – 15 de abril de 2012)

 

I Leitura: At 4, 32-35

Salmo Responsorial: Sl 117 (118), 2-4.16ab-18.22-24 (R/.1)

II Leitura: 1Jo 5,1-6

Evangelho: Jo 20,19-31 (Tomé)

Queridos irmãos,

Com este Domingo encerramos a Oitava Pascal. Também tradicionalmente cognominado Dominica in Albis (Domingo de branco), este dia da Oitava era a data em que os neófitos, já participantes da comunidade dos fiéis, retiravam as suas vestes batismais, as suas roupas brancas, pelo menos enquanto indumentária. Prática que remonta desde os tempos de Santo Ambrósio, ou seja, séculos III-IV. Esta deposição se dava na igreja romana de São Pancrácio que, com a tenra idade de doze anos, deu ao mundo o seu testemunho de fé no Senhor com o seu martírio. Com tal atitude nesta igreja estacional (estacional porque a cada dia da semana da Oitava da Páscoa os que, em Roma, receberam o Batismo na noite pascal eram conduzidos para um determinado templo, daí serem chamados statio), a Mater Ecclesia queria ensinar os seus filhos recém-nascidos para a fé através da graça batismal o quão é necessário confessar o nome do Senhor. Por este motivo, a Antífona de Entrada nos introduz nesta realidade: “Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite para crescerdes na salvação, aleluia!” (1Pd2,2). É deste introito que podemos extrair uma segunda cognominação para este domingo através da sua récita ou canto na língua latina: “Quasi modo géniti infantes, allelúia: rationábiles, sine dolo lac concupíscite, allelúia, allelúia, allelúia”. Logo, um outro nome dado a este domingo é o de Dominica Quasi Modo. É ainda no dia de hoje que a última prece é dirigida a Deus pelos neófitos através da comunidade que apresentou os seus catecúmenos para o batismo na Vigília Pascal: “Acolhei, ó Deus, as oferendas do vosso povo e dos que renasceram nesta Páscoa, para que, renovados pela profissão de fé e pelo batismo, consigamos a eterna felicidade” (Oração sobre as oferendas); ou a que enfatiza o banho batismal: “Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, e o sangue que nos redimiu” (Oração de Coleta).

Na Liturgia da Palavra, logo na Primeira Leitura, temos o que vulgarmente se apelida nos Atos dos Apóstolos de ‘o retrato das primeiras comunidades’. Interessantíssima a forma com a qual a Igreja, pedagogicamente, nos conduz pelas sendas do mistério através do espírito da Sagrada Liturgia: após fazer novos filhos de Deus pelo Batismo, ela, como Mestra, aponta, não somente para os novos cristãos como também para nós que já trilhamos a fé há tempos relativamente largos, como se fundavam as proto-comunidades cristãs, demonstrando-nos os sentimentos que eram vividos aí: assiduidade em uma oração concorde o que poderíamos chamar de piedade (cf. At 2, 42), partilha e comunhão – em grego koinonia (cf. v. 44-46), audiência à Palavra de Deus e aos ensinamentos da Igreja (cf. v. 42; 1Cor 15, 11). Esta se torna uma fórmula infalível para uma manifesta percepção de crescimento da comunidade dos seguidores de Jesus. Se os novos cristãos adentrarem nas soleiras da Comunidade dos Eleitos já com este pensamento, manifestam o seu desejo íntimo de, como crianças recém-nascidas na fé, desejarem “o puro leite espiritual para o crescimento na salvação”, tal como nos menciona a Antífona de Entrada para esta celebração extraída da Primeira Carta de São Pedro. E se nós perseguirmos fielmente tal intento, como supostos cristãos amadurecidos, estaremos fazendo o que a Carta aos Hebreus nos ordena: “o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal” (Hb 5,14).

Neste Domingo da Divina Misericórdia, o Salmo Responsorial ressalta a misericórdia do Senhor. Bondade e misericórdia (tal como entoa o salmo) são atributos do amor do Senhor. E com qual desígnio benevolente o Senhor revelou o seu amor com maior profundidade senão pela regeneração do homem pela Cruz de seu Filho? O mistério de nossa redenção é uma prova estupenda da misericórdia do Senhor. O que fizemos por merecê-la? Nada, absolutamente nada! Por isso, o mistério pascal é ocasião muito mais que propícia para recordar a caridade do Senhor para conosco. Entendamos por caridade aquilo que o termo latino inspira de fato: um amor desinteressado. O Beato João Paulo II, em sua Carta Encíclica Dives in misericórdia, afirma: “Se quisermos exprimir totalmente a verdade acerca da misericórdia, com aquela totalidade com que ela foi revelada na história da nossa salvação, devemos penetrar de maneira profunda nesse acontecimento final que, especialmente na linguagem conciliar, é definido como mysterium paschale (mistério pascal). […] O mistério pascal é o ponto culminante da revelação e atuação da misericórdia, capaz de justificar o homem, e de restabelecer a justiça como realização do desígnio salvífico que Deus, desde o princípio, tinha querido realizar no homem e, por meio do homem, no mundo. Cristo, ao sofrer, interpela todo e cada homem e não apenas o homem crente. Até o homem que não crê poderá descobrir nele a eloquência da solidariedade com o destino humano, bem como a harmoniosa plenitude da dedicação desinteressada à causa do homem, à verdade e ao amor. A dimensão divina do mistério pascal situa-se, todavia, numa profundidade ainda maior. A cruz erguida sobre o Calvário, na qual Cristo mantém o seu último diálogo com o Pai, brota do âmago mais íntimo do amor, com que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, foi gratuitamente beneficiado, de acordo com o eterno desígnio divino” (n. 7). 

São João, na Segunda Leitura, ressalta-nos que a caridade com o próximo é a medida dos mandamentos ao mesmo tempo em que o cumprimento dos mandamentos é medida da caridade. Poderíamos ir mais adiante em afirmar que o amor ao próximo é critério indispensável para averiguarmos a nossa comunhão com Deus: “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão” (1Jo 4, 20-21). A nossa união com Deus e com os irmãos é um produto da fé em Nosso Senhor. A fé abraçada convictamente, pelo Batismo, nos torna filhos de Deus. Somente a fé em Jesus nos é capaz de dar forças para vencermos o mundo e as suas armadilhas. Importante saber que, em síntese, a fé no Cristo gera o amor, e este, conseguintemente, “cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4, 8).

O Evangelho de hoje, riquíssimo em detalhes, apresenta-nos elementos diversos dos quais podemos extrair alguns pontos para a nossa reflexão. Em primeiro lugar, observamos, nesta narrativa, que o Senhor Ressuscitado aparece aos seus (com exceção de Tomé) no dia de Páscoa, ou seja, “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (Jo 20, 19). Esta prática de Jesus de aparecer primordialmente em tal dia será um marco que perpassará toda a vida da comunidade cristã de todas as épocas. Assim, o ‘primeiro dia da semana’ é o Dies Domini (Dia do Senhor) por excelência, e, portanto, da comunidade. Não é mais o sétimo, mas o primeiro dia da semana, o Oitavo Dia, que será o tempo especial de encontrar-se com Deus e com os irmãos. Posteriormente, temos uma observação premente feita por São João: “estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles […]” (v. 19). Este contraste entre medo dos discípulos e o colocar-se do Senhor no meio dos seus quer nos mostrar que o Cristo ressuscitado não cessará de acompanhar a sua Igreja, conduzindo-a pelos Apóstolos. Dessa forma, o Ressuscitado cumpre o que prometera: “Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais […] Não vos deixarei órfãos. Voltarei a vós. Ainda um pouco de tempo e o mundo já não me verá. Vós, porém, me tornareis a ver, porque eu vivo e vós vivereis” (Jo 14, 3.18-19);  e ainda: “Ainda um pouco de tempo, e já me não vereis; e depois mais um pouco de tempo, e me tornareis a ver, porque vou para junto do Pai” (Jo 16,16); ou como o Senhor assegura no Evangelho de Mateus: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Em São João, a presença do Senhor é sinônima de paz, daí a sua saudação: “A paz esteja convosco” (v. 19. 21. 26). Esta mesma presença portadora de paz repelirá o incômodo do medo dos discípulos.

Ao frisar que Jesus mostra-lhes o lado, São João quer sublinhar que há uma continuidade entre o Jesus sofredor da Cruz e o Senhor glorioso que se lhes apresentava naquele instante e que permaneceria junto deles, confortando-os nas diversas agruras que a Igreja e os seus filhos enfrentariam, a começar pelos Apóstolos que se alegraram por se encontrarem com Jesus Ressuscitado. Daqui, poderemos extrair uma formidável lição: se cremos na força de Jesus vivo e ressuscitado, o mesmo Cristo crucificado, teremos as condições essenciais para enfrentar os desafios que a vida nos impõe com alegria e justa satisfação de estar padecendo tudo por amor a Deus, tal como um sacrifício de suave odor: “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).

Jesus envia os seus discípulos e lhes sopra o Espírito, o poder do Ressuscitado é transmitido à Sua Igreja. Assim, compreendemos que a missão da Igreja se insere, justamente, na missão de Jesus; a Igreja é continuadora da missão do Senhor. O insuflar do Espírito remete-nos à ideia de que Jesus, com a sua ressurreição, promove uma nova criação, da qual fazemos parte. Aqui, São João utiliza o mesmo verbo grego (ὲνεφύσησεν) que fora utilizado em Gn 2, 7, o que equivale a insuflar: “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Esta atitude de soprar o Espírito, doando-lhe para a Igreja, está presente também na cruz, quando o Senhor, expirando, entrega o Espírito. Esta concessão coadunada em dois momentos bastante unidos é o que os estudiosos da Sagrada Escritura apelidam de ‘pentecostes de João’. Assim João quer sugerir que, somente com a sua Páscoa, Jesus pode dar o Espírito ao mundo, a Igreja. O Espírito é poder de salvação que os discípulos manifestarão em comunhão com Jesus, por isso, somente com o Espírito dado por Ele, é que a Igreja é a única que possui o poder de perdoar os pecados, emendando as almas ao seu Senhor.

Um trecho que nos salta aos olhos é o que se refere a Tomé, o mesmo que disse, não acreditando no testemunho daqueles que, por primeiro, viram o Senhor Ressuscitado: “Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei” (v. 25). Jesus, ao aparecer uma segunda vez –agora Tomé estando presente –, satisfaz-lhe os desejos. Tomé duvida do testemunho daqueles que, juntamente com ele, fazem parte da Igreja. A mesma Igreja que, após tantos séculos anunciando uma verdade que lhe é fundamental, a ressurreição de Jesus, é tantas vezes desacreditada e posta em dúvida, inclusive no seu testemunho pascal, por nossa fé fraca e vacilante.

Diante da repreensão de Jesus ao apresentar-se tal como queria Tomé, o incrédulo exclama: “Dominus meus et Deus meus” – Meu Senhor e meu Deus”  (Jo 20, 28), reconhecendo a divindade e o senhorio do Ressuscitado. O Senhor não para na censura a Tomé, mas tece um elogio: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (v. 29). A quem se dirigia tal saudação senão a nós, crentes? (Pelo menos supomos que temos fé no Senhor). Assim, ao apresentar-nos tal Evangelho neste Domingo in Albis, a Igreja quer nos mostrar, como batizados, que Ela é a comunidade bem-aventurada dos creem em Jesus morto e ressuscitado, de cuja pertença fazemos parte. Por este motivo, o Evangelista termina esta perícope afirmado: “Jesus realizou muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (v. 30-31).

Que a Luz do Ressuscitado sempre nos inspire no testemunho autêntico e existencial da sua e da nossa Páscoa.     

 
 

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